quinta-feira, 5 de abril de 2007

Levando a Sério a Nossa Missão


Pr. Walter Santos Baptista
(Lucas 4.14-21)

O verso 14 deste capítulo, chamado por alguns de “O Manifesto de Nazaré”, inicia uma das mais extraordinárias narrativas do evangelho. Jesus lê no culto da sinagoga o trecho de Isaías 61.1,2 acrescido de Isaías 58.6. Com essa narrativa, única nos Evangelhos Sinóticos, única, aliás, nos Evangelhos, enquanto Mateus e Marcos dizem que Jesus anuncia o reino de Deus, Lucas mostra que o reino é a realidade do próprio Jesus, o Messias, o Cristo, o Ungido de Deus.

BREVÍSSIMA ANÁLISE

Diferentes critérios poderão ser utilizados no estudo deste tocante trecho. Há quem o veja por seu aspecto literário, seu lado puramente poético, e, assim, perceba o paralelismo entre os seus versos, onde “porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres” casa com “restauração da vista aos cegos”, e “enviou-me para proclamar libertação aos cativos” é paralelo a “para por em liberdade os oprimidos”, tendo tudo seu ápice em “para proclamar o ano aceitável do Senhor”.

Há quem olhe o apelo político das fortes expressões: “anunciar boas novas aos pobres”, “libertação aos cativos”, “restauração da vista aos cegos”, “por em liberdade os oprimidos”, posição tão do agrado dos liberacionistas e dos radicais de uma modo geral.
Podemos ver, no entanto, a extraordinária lição de apostolado, o embasamento de um ministério que é repassado à Igreja de Cristo. Analisemos, assim, a missão que nos é confiada.
Tudo começa com a unção porque nenhum empreendimento em nome de Cristo subsiste sem a unção do Espírito: “O Espírito do Senhor está sobre mim...”, diz o texto (v. 18a).
O apóstolo Pedro, num culto de proclamação do evangelho em casa de um oficial do exército romano, refere-se ao ministério de Jesus Cristo afirmando, “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele” (At 10.28). Afirmação que nos conduz às incisivas expressões que definem a plataforma a ser seguida por Jesus.

Verso 18 Recordemos a palavra profética: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar Liberdade aos cativos, Dar vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos...”
Há uma profunda carga emocional nestas palavras: pobres, cativos, cegos, oprimidos. E Jesus as lê em Isaías 61.1, capitulo considerado como o cerne da mensagem do profeta Isaías.
Jesus Se identificando com o fato profético de Isaías 61, demonstra ser o portador do Espírito, o profeta escatológico, proclamador das “boas novas”, arauto do evangelho, e aquele que traz libertação para os oprimidos, função eminentemente messiânica.
Os pobres, os cativos, os cegos e os oprimidos são não apenas os desafortunados deste mundo, mas os que têm necessidade especial de dependência de Deus, o que pode ser conferido em Lucas 1.53 e 6.20.

Um comentarista de Lucas diz, a esse propósito, que “O cativeiro a que se refere [Lucas 4.18,19] é evidentemente moral e espiritual. O pensamento não se move no plano de abrir portas físicas, mas livrar os homens da invisível, porém terrivelmente real prisão de suas almas”. Na verdade, essas palavras de tão forte carga emocional descrevem a falência espiritual à qual Jesus dá especial atenção.
Verso 19 A palavra profética completa dizendo, “e anunciar o ano aceitável do Senhor”. Este “ano aceitável do Senhor” a ser proclamado é a era messiânica iniciada na pessoa e obra de Jesus Cristo.
Verso 21 Lucas registra que Jesus Cristo fez o seguinte comentário:
“Hoje se cumpriu esta escritura em vossos ouvidos”.
Os contemporâneos de Jesus não duvidavam que o reino de Deus viria algum dia, mas Jesus ensina que Deus está agindo agora, no presente, na obra dEle mesmo. Com isso, Jesus é feito o centro da História.

O propósito divino é tudo colocar sob a autoridade de Jesus Cristo, o Senhor da História, agora com a vinda do reino, exaltado, glorificado; Jesus libertador de Quem Paulo, apóstolo, diz: “seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vinda, seja a morte, seja o presente, seja o futuro, tudo é vosso, e vós de Cristo, e Cristo de Deus” (1Co 3.22).

AS LIÇÕES

O ser humano vive preocupado com o congelamento do salário, com a inflação crescendo em surdina, com o avanço e engodo das seitas, com os conflitos e a esperada paz mundial. Pois Jesus traz nova compreensão da vida humana, por isso que, plenamente de acordo com Sua plataforma de ação, é o portador da obra redentora de Deus, oferece Sua Palavra e Suas ações como desafio à fé.

Muitos contemporâneos de Jesus criam que o reino de Deus era poder temporal (Lc 22.24-30; Mt 20.20), libertação política (Mt 27.39-44; Jo 6.14ss; At 1.6), e, mesmo, comida e bebida (Rm 14.12). Mesmo os discípulos caíram nesse erro. Jesus, no entanto, esclarece que o reino de Deus já veio em Sua Pessoa e disso oferece provas (Mt 4.17; 11.1-6; 12.28; Lc 17.20ss).
A fraqueza de algumas pregações está na idéia de que o reino de Cristo ainda virá. Não é, entanto, o que Jesus Cristo ensina. Narra Lucas que “Interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes: o reino de Deus não vem com aparência visível. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei=lo ali! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (cf. Mt 3.2; 12.28)

É o reino inaugurado, apesar de que será plenamente cumprido na Parousia, a Segunda Vinda. (cf. Lc 22.18), aquilo que C. H. Dodd chamou de “Escatologia Realizada”.
E que lições extraímos desses fatos, se diante de nós temos uma missão a ser levada com o máximo de seriedade?

1a lição - Jesus é o cumprimento das antigas profecias.
Apesar de Suas palavras fazerem nascer diferentes opiniões: admiração, como no verso 22 (“Todos lhe davam testemunho, e se maravilhavam das palavras de graça que saíam da sua boca...”), ou repulsa, como no verso 28 (“Todos na sinagoga... se encheram de ira”); apesar de quererem seus conterrâneos os sinais do shalom que Ele traz, como destacado no verso 23, o Messias oferece uma salvação completa, integral, verdadeiro sentido semântico do conceito e da palavra shalom.

2a lição -o reino de Deus é Jesus Cristo entre nós.
É o Emanuel. Não é libertação para o futuro, pois já vivemos os chamados “últimos dias” ((At 2.17; Hb 1.2; 2Pe 3.3; 1Jo 2.18). Mas Jesus é “hoje” a boa notícia, a graça, a redenção dos homens. Jesus glorificado, Salvador, Senhor, Cristo, é poder renovador para a terra, salvação para a pessoa humana, razão porque o livro dos Atos dos Apóstolos repete o fim que a verdade está em Cristo Jesus, e mostra o modelo da “Plataforma de Nazaré” na defesa/sermão de Paulo ao rei Agripa: “Eu te livrarei deste povo, e dos gentios, a quem agora te envio, para lhes abrir os olhos, e das trevas os converter à luz, e do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam remissão dos pecados e herança entre aqueles que são santificados pela fé em mim” (At 26.17,18).

3a lição - a missão é dada por Deus
Afinal, a missão de Jesus Cristo é o modelo, padrão, norma para a missão de Seus discípulos, como expresso em João 20.21: “Assim como o Pai me enviou, eu vos enviou”. Isso quer significar que para igrejas que têm como modelo a missão de Jesus, há necessidade de vidas modeladas por Ele mesmo, que tenham a Sua mente, pois “aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1Jo 2.6; cf. 1Co 2.16; Fl 2.5-8; Rm 8.29).

Se o apostolado cristão nasceu do coração do Mestre, temos que o Deus Vivo da História da Salvação é um Deus que envia. Enviou Seus profetas a Israel; enviou Seu Filho ao mundo; em Cristo, enviou os apóstolos, os setenta e a Igreja; enviou o Espírito Santo à Igreja e aos nossos corações, e nos envia ao mundo, apóstolos, missionários, evangelistas, educadores, facilitadores da sagrada comissão (Jo 20.21; 17.18).

4a lição - é preciso redescobrir a importância da escatologia, ponto de contato entre teologia e missão cristã.
Do ponto de vista da teologia, sem escatologia, o evangelho é tão somente um ideal ético. O povo de Deus não pode ter crise de identidade, pois sabe quem é, sabe o que faz, e sabe para Quem vive.
Outrossim, o povo de Deus não pode perder a memória. Uma grande característica do povo de Israel é a preservação da memória (tzikaron)de quem ou do que merece ser lembrado. A memória da Igreja é o Novo Testamento, são os atos apostólicos, as ações e reações da Igreja Primitiva. O povo de Deus há de estar padrões acima do sistema deste mundo tenebroso. Jesus, o Cristo de Deus, é decisivo, normativo para os assuntos de fé e prática. Isso nos traz a

5ª lição - ninguém pode obedecer à ordem de ir ou a de servir se não houver amor porque a missão da Igreja de Jesus Cristo não pode ser realizada sem esta característica essencial do cristão. Jesus perguntou a Pedro (Jo 21.16): “Simão, filho de João, verdadeiramente tu me amas?”.
Que significa isso hoje? Sem dúvida, três passos no desafio e compromisso do cristão:· É um convite à auto-consciência. Alguém expressou que somos mãos, pés, olhos e boca de Deus; somos Seus instrumentos, agentes do Reino. · Um convite à consciência da pessoa de Jesus Cristo como Messias de Deus, Ungido do Pai, o Filho do Deus Vivo, Senhor de nossas almas, de nosso futuro, de nosso destino. · Um convite ao compromisso. Se Deus prova o Seu amor para com os infelizes pecadores no fato de que Cristo morreu por nós, estando nós ainda nessa condição, nossa gratidão se expressará no cometimento apaixonado: cumprir a missão sob o poder do Alto e na força do Espírito. Não diz o hino 438 do Cantor Cristão na sua terceira estrofe:
“Firmes, levemos a mensagem santa
Do evangelho de Jesus!
Esta mensagem divinal que encanta
E que o pecador conduz;
Cheia de bênçãos do glorioso Deus,
Que descobre os escolhidos seus,
Cheia de amor, traz-nos do céu o fragor
Da compaixão de Deus e dá-nos graça tanta!

Vamos, irmãos, levar
Essa luz ao mundo inteiro!
Vamos, irmãos, contar
Que esse dom é verdadeiro!
Vamos, irmãos, pregar
Mui confiados no Cordeiro
Que na cruz já fez A nossa redenção”.

Vamos?

Texto extraído so site www.monergismo.com
Sobre o autor: Walter Santos Baptista é Pastor da Igreja Batista Sião em Salvador, BA. (Agradecemos ao autor pela autorização escrita para publicarmos os seus artigos no Monergismo.com)

Um comentário:

Editor da Revista do Protestante disse...

Olá Editor, gostei e sua matéria e do seu blog está de parábens, principalmente pelo nome "levando a Sério a nossa missão", bom eu tambem vasculhei alguns artigos e encontrei Oswald Smith, lí o livro dele clamor pelas nações, exelente. Desejo ao seu Blog e a este trabalho que Deus abençoe muitíssimo!Gostária de convida-lo para conhecer o meu blog: www.revistadoprotestante.blogspot.com, estou esperando a sua visita!
Abraço